Vesícula biliar

Autores: Ruben Gouveia; Jorge Oliveira; Adelaide Sousa; Ver página autores.
Última edição: Pathologika, 12/11/2020
Citar esta página: Gouveia R, Oliveira, J e Sousa, A. Vesícula biliar – Pathologika. Disponível em: https://pathologika.com/macroscopia/descricao-macroscopica/vesicula-biliar/‎ [Acedido: data].

Vesícula biliar – Introdução

A vesícula biliar consiste de um órgão ôco situado na superfície infra-posterior da superfície hepática. É dividida em fundo (porção arredondada que se projeta abaixo do fígado), corpo (fica em contato com o fígado) e colo (contínuo com o ducto cístico).

Cálculos presentes no seu interior podem provocar uma dilatação da junção colo-cístico, denominada por bolsa de Hartmann, provocando processos agudos ou crónicos de inflamação, mucocelo, pólipos e patologias neoplásicas.

Um importante marco cirúrgico (onde a artéria cística pode ser encontrada) é o triângulo de Calot, que é formado pelo ducto hepático comum, o ducto cístico e o fígado. 

A vesícula biliar é considerada uma peça cirúrgica. A sua excisão cirúrgica é denominada de colecistectomia. (Figura M10)

Deve ser efetuada a sua abertura imediata após ser recebida na anatomia patológica!

Conceitos básicos

A vesícula biliar está dois terços circundada por peritoneu que liga a adventícia não peritoneal do corpo e colo à superfície inferior do fígado. O ducto cístico tem 4 cm de comprimento e une-se ao ducto hepático comum para formar o ducto biliar comum.

A vesícula biliar está relacionada com a concentração, armazenamento e distribuição da bílis. Os sais biliares emulsificam as gorduras no duodeno e assim facilitam a sua digestão e absorção. Quando alimentos gordurosos entram no duodeno, as células endócrinas libertam hormonas que levam à contração da vesícula biliar e relaxamento do esfíncter de Oddi, permitindo assim que a bílis seja libertada para o duodeno.

Patologia

Há considerável sobreposição nas características clínicas relacionadas com doença da vesícula biliar e do ducto biliar extra-hepático. Os cálculos biliares costumam ser assintomáticos. No entanto, se houver obstrução da saída da vesícula biliar, pode ocorrer dor progressivamente intensa no quadrante superior direito (cólica biliar), associada a náuseas e vómitos.

Se o cálculo permanecer impactado, a vesícula biliar pode infetar e inflamar agudamente (colecistite aguda) – isso causa dor constante e intensa no quadrante superior direito, pirexia e sinais de peritonite localizada. Pode progredir para empiema.

A impactação do cálculo também pode causar mucocele, isto é, vesícula biliar dilatada na qual a bílis foi reabsorvida, mas a secreção de muco continua. Ocasionalmente, em idosos, a vesícula biliar pode perfurar levando a peritonite generalizada.

Cálculos biliares localizados no ducto cístico ocasionalmente causam icterícia obstrutiva, especialmente se o ducto for curto, pois a inflamação e o edema à volta do ducto cístico impedem o fluxo da bílis através do ducto biliar comum (síndrome de Mirizzi).

O carcinoma da vesícula biliar pode apresentar-se de maneira semelhante à doença do cálculo biliar, embora perda de peso e icterícia sejam características adicionais.

Condições patológicas não neoplásicas

Colelitíase ou litíase biliar (cálculos biliares); Colecistite aguda; Colecistite crónica; Colesterolose.

Os cálculos podem ser constituídos por uma mistura de componentes entre sais de cálcio/pigmentos biliares e colesterol (Figura M8 e M9):

Coloração amarela: composição de colesterol
Coloração preta: composição pigmento biliar
Coloração amarela-esverdeada: composição mista

Condições patológicas neoplásicas

 Adenoma; carcinoma; outros cancros: raros, mas podem incluir rabdomiossarcoma embrionário (crianças), leiomiossarcoma e linfoma maligno, ou carcinoma metastático especialmente com origem no estômago, pâncreas, ovário, ductos biliares cólon e mama.

Procedimento prévio

  1. Orientar a peça;
  2. Procurar gânglios, principalmente à volta do ducto cístico;
  3. Abrir com o auxílio de um enterótomo;
    • Deve ser aberta pela superfície serosa (face oposta à que se encontrava em contacto com o fígado), do fundo para o colo, tendo o cuidado para não abrir o ducto cístico (figura M8 e M9).
Figura M8: Peça operatória de colecistectomia. Legenda: A – Superfície serosa; B – Superfície adventícia; C – Colo com o ducto cístico; D – Colo com o ducto cístico aberto; 1 – Fundo; 2 – Corpo; 3 – Colo; Seta – Indicação do ducto cístico.

Figura M9: Ilustração da abertura de uma peça operatória de colecistectomia.
Fonte: adaptado de “Westra, W.H. et al., 2004. Surgical Pathology Dissection: an illustrated guide”. 2ª ed., Springer-Verlag New York.
Figura M10: Peça de colecistectomia com gânglio justa-cístico. Legenda: Seta – indicação do gânglio.

Amostragem / Colheita de fragmentos

  1. Descrever o estado em que foi recebida a peça (encerrada, aberta ou fragmentada).
  2. Dimensões (comprimento e diâmetro).
  3. Descrever a serosa, a parede, a mucosa, pólipos (caso presentes) e outras alterações que possam estar presentes.
    • Zonas de perfuração devem ser descritas.
  4. Verificar a presença de cálculos, dizer a sua cor e o maior eixo do cálculo maior.
  5. Verificar a presença de septos e dizer se são completos ou incompletos.
  6. Se o conteúdo do lúmen for diferente do normal (por exemplo, branco pastoso, mucinoso, purulento) deve ser descrito.
  • Três fragmentos – um do fundo, um do corpo e um do ducto cístico.
  • Seguir todos os pólipos, tentando sempre não os destacar da mucosa.
  • Seguir todos os gânglios.
  • Colher áreas de aspeto “diferente” do normal (áreas ulceradas, com inductos fibrino-purulentos, etc).

Considerar as orientações prévias à descrição macroscópica assim como procedimentos para a descrição macroscópica.

Descrição macroscópica – exemplos

Vesícula não tumoral

Tubo referenciado como “”.

Peça de colecistectomia enviada encerrada/aberta/fragmentada, com _x_ cm.  Serosa lisa e brilhante / despolida / com rede vascular visível.  Sem / contém _ cálculo(s) (cor), o maior com _ cm de maior eixo. Parede fina com _ cm / Parede difusamente espessada com _ cm de espessura máxima. Mucosa verde/castanha finamente granulosa / despolida / com granulado mais grosseiro amarelo – dourado / com áreas ulceradas / com inductos fibrino-purulentos / com _ pólipo(s) amarelo-dourado, com _ cm de maior eixo/ de _ a _ cm de maiores eixos.

Vesícula com gânglio

Tubo referenciado como “”.

Peça de colecistectomia enviada encerrada/aberta/fragmentada, com _x_ cm. Serosa lisa e brilhante / despolida / com rede vascular visível. Sem / contém _ cálculo(s) (cor), o maior com _ cm de maior eixo. Parede fina com _ cm / Parede difusamente espessada com _ cm de espessura máxima. Mucosa verde/castanha finamente granulosa / despolida / com granulado mais grosseiro amarelo – dourado / com áreas ulceradas / com inductos fibrino-purulentos / com _ pólipo(s) amarelo-dourado, com _ cm de maior eixo/ de _ a _ cm de maiores eixos.

Adjacente ao cístico observa-se gânglio com _ cm de diâmetro.

Vesícula com septo

Tubo referenciado como “”.

Peça de colecistectomia enviada encerrada/aberta/fragmentada, com _x_ cm. Serosa lisa e brilhante / despolida / com rede vascular visível. Sem / contém _ cálculo(s) (cor), o maior com _ cm de maior eixo. Parede fina com _ cm / Parede difusamente espessada com _ cm de espessura máxima. No fundo/corpo observa-se septo completo/incompleto. Mucosa verde/castanha finamente granulosa / despolida / com granulado mais grosseiro amarelo – dourado / com áreas ulceradas / com inductos fibrino-purulentos / com _ pólipo(s) amarelo-dourado, com _ cm de maior eixo/ de _ a _ cm de maiores eixos.

Vesícula com polipo

Tubo referenciado como “”.

Peça de colecistectomia enviada encerrada/aberta/fragmentada, com _x_ cm. Serosa lisa e brilhante / despolida / com rede vascular visível. Sem / contém _ cálculo(s) (cor), o maior com _ cm de maior eixo. Parede fina com _ cm / Parede difusamente espessada com _ cm de espessura máxima. No fundo/corpo observa-se pólipo amarelo/verde com x cm. Mucosa verde/castanha finamente granulosa / despolida / com granulado mais grosseiro amarelo – dourado / com áreas ulceradas / com inductos fibrino-purulentos / com _ pólipo(s) amarelo-dourado, com _ cm de maior eixo/ de _ a _ cm de maiores eixos.

Vesícula com zona de perfuração

Tubo referenciado como “”.

Peça de colecistectomia enviada encerrada/aberta/fragmentada, com _x_ cm. Serosa lisa e brilhante / despolida / com rede vascular visível. No fundo/corpo/colo observa-se zona de perfuração com _ cm de maior eixo. Sem / contém _ cálculo(s) (cor), o maior com _ cm de maior eixo. Parede fina com _ cm / Parede difusamente espessada com _ cm de espessura máxima. Mucosa verde/castanha finamente granulosa / despolida / com granulado mais grosseiro amarelo – dourado / com áreas ulceradas / com inductos fibrino-purulentos / com _ pólipo(s) amarelo-dourado, com _ cm de maior eixo/ de _ a _ cm de maiores eixos.

Exemplo prático de descrição macroscópica

Informação clínica: litíase

Figura M11: Peça operatória de colecistectomia.
Figura M23: Peça operatória de colecistectomia, aberta, com dois cálculos.

Descrição macroscópica:

Tubo referenciado como “vesicula biliar”.

Peça de colecistectomia enviada encerrada, com 8×3 cm. Serosa lisa e brilhante. Contém dois cálculos amarelos, o maior com 2 cm de maior eixo. Parede fina com 0.2 cm. Mucosa verde com granulado mais grosseiro amarelo – dourado.

Colheita:

  • 1 fragmento do fundo;
  • 1 fragmento do corpo;
  • 1 fragmento do ducto cístico.
Figura M24: Colheita de uma peça operatória de colecistectomia sem alterações macroscópicas.

Imagens macroscópicas de vesícula biliar


Referências bibliográficas

Lester, S.C., 2010. Manual of surgical pathology 3rd ed., Saunders/Elsevier.

Westra, W.H. et al., 2004. Surgical Pathology Dissection: an illustrated guide, Springer-Verlag New York.

Humphrey, P.A., Dehner, L.P. & Pfeifer, J.D., 2008. The Washington manual of surgical pathology, Wolters Kluwer Health/Lippincott Williams & Wilkins.

Shariff, S., 2011. Fundamentals of Surgical Pathology: Grossing Techniques, Gross Pearls, Microscopy Pearls: Aids in Diagnosis, Synoptic Reporting and Minimum Data Sets, Jaypee Brothers, Medical Publishers.

Weiss, S.W., Goldblum, J.R. & Folpe, A.L., 2007. Enzinger and Weiss’s Soft Tissue Tumors, Elsevier Health Sciences.