Citologia Cervico-Vaginal

Autor: Andreia Carreira. Ver página autores.
Última edição: Pathologika, 24 de Agosto de 2016
Citar esta página: Carreira, A., Citologia Cervico-Vaginal – Pathologika. Available at: https://pathologika.com/citologia/citologia-cervico-vaginal/ [Acedido: data].
A citologia cervico-vaginal, ou cervical, tem sido o principal método de deteção e prevenção do cancro do colo do útero e estuda as células esfoliadas da junção escamo-colunar.
Além da deteção de lesões pré-malignas e malignas, a citologia vaginal proporciona informação sobre o estado hormonal da utente, assim como a presença de microrganismos patogénicos.

 

Pela susceptibilidade para infeções por vírus carcinogénicos (exemplo o vírus do papiloma humano – HPV), assim como pela sua localização anatómica, o colo do útero atua como um “sentinela” para a deteção precoce de lesões e carcinomas.

Sendo a infeção uma das queixas clínicas mais frequentes e uma das principais causas que leva a mulher ao ginecologista (uma vez que a utente tem sintomas), os programas de rastreio assumem uma importância vital na deteção de cancro do colo útero, uma vez que este tipo de tumor, numa fase inicial, não manifesta sintomas / sinais na utente. O cancro do colo do útero é a causa de 5% das mortes femininas em todo o mundo.

Os exames de citologia cérvico-vaginal podem ser efectuados de forma convencional ou através dos métodos conhecidos como citologia em meio-líquido.

As amostras de citologia convencional são obtidas utilizando uma espátula ou “escova” de forma a obter células do colo do útero, para que possam ser espalhadas na lâmina, fixadas e posteriormente observadas.

Para a colheita de citologia em meio líquido, a amostra é transferida para um meio líquido (fixador), de forma a preservar melhor as células, DNA, RNA e proteínas. A amostra é posteriormente processada com o objectivo de as células ficarem dispostas numa camada fina sem artefactos e sem sobreposição.

Características normais das células

Os esfregaços de citologia cervico-vaginal são constituídos por células epiteliais pavimentosas e células epiteliais glandulares.
A tabela C2 apresenta um resumo das principais características de cada uma das células.

As células superficiais, intermediárias, naviculares, parabasais e basais fazem parte das células epiteliais pavimentosas (Figura C1).

As células endocervicais e endometriais fazem parte das células epiteliais glandulares.

Figura C1.Epitélio normal do colo do útero.

Figura C1.Epitélio normal do colo do útero.

 

Células epiteliais pavimentosas

As células superficiais podem surgir em diversas condições, nomeadamente na 1ª fase do ciclo (pré-ovulação), após terapêutica estrogénica ou como resultado de um tumor do ovário. São células da camada superficial, são poliédricas com aproximadamente 40 a 60 micra, têm um citoplasma vasto, homogéneo, translúcido, eosinófilo por vezes cianófilo (com a coloração de papanicolaou), outras vezes com granulações querato-hialinas. O núcleo das células superficiais é central, picnótico, redondo a oval, sem padrão de cromatina visível com membrana nuclear regular.

As células intermediárias surgem geralmente na 2ª fase do ciclo (pós-ovulação) na gravidez, na menopausa e na terapêutica com progesterona. São células da camada média, com glicogénio abundante e podem aparecer isoladas (esfoliação fisiológica) ou agrupadas (esfoliação traumática). Têm citoplasma vasto, translúcido, cianófilo, por vezes eosinófilo (com a coloração de papanicolaou), podem apresentar os bordos enrolados, com grânulos querato-hialinos ou com vacúolos. O núcleo pode ser redondo ou oval, maior que o das células superficiais e a cromatina bem definida.

 

As células naviculares são células menos maduras, logo, mais pequenas que as intermediárias. Surgem frequentemente em grávidas e podem aparecer em situações patológicas, como o luteoma do ovário e quistos luteínicos. São células que pela sua forma são semelhantes a um barco, possuem citoplasma rico em glicogénio o que faz com que haja uma densificação do citoplasma junto à membrana citoplasmática.

Na camada profunda do epitélio encontram-se as células parabasais. São mais pequenas que as naviculares, com os núcleos maiores, são redondas e regulares com 15 a 20 micra. Possuem relação núcleo / citoplasma aumentada, o citoplasma é denso, acidófilo (ou cianófilo), com a membrana citoplasmática bem definida e com vacúolos. O núcleo é central, a cromatina é fina e granular de distribuição uniforme. Podem ser encontradas na pré-puberdade, pós-parto, pós-menopausa, pós-irradiação ou por insuficiência de estrogénio.

As células basais têm origem na camada basal do epitélio. Raramente são observadas, excepto se existir uma esfoliação traumática (erosão ou ulceração da mucosa), atrofia severa ou uma infecção. São células pequenas com 15 micra, ovais ou redondas com uma elevada relação núcleo / citoplasma.

 

 

Células epiteliais glandulares

As células endocervicais, são células cilíndricas alongadas ou arrendondadas dependendo do ângulo que são observadas. Os aglomerados de células mostram um aspecto de favo de mel ou em paliçada.

Durante o ciclo menstrual, as glândulas endocervicais sofrem alterações cíclicas na actividade secretora. Na fase proliferativa, os níveis crescentes de estrogénio promovem a secreção de um muco fino e aquoso, o qual permite a passagem dos espermatozoides para dentro do útero na época da ovulação. Nesta fase, o citoplasma é cianófilo e o núcleo adquire uma forma elíptica ou esférica com um diâmetro de 7um.

Após a ovulação (fase secretora), o muco cervical torna-se altamente viscoso, formando um tampão que impede a entrada de microorganismos (e de espermatozoides) da vagina, aspecto particularmente importante, caso ocorra uma gravidez. Durante esta fase, o citoplasma é claro e edemaciado e o muco abundante desloca o núcleo para a base da célula.

 

As células endometriais podem ser vistas em esfregaços até ao 12º dia do ciclo menstrual e descamam na fase menstrual. As células endometriais são mais pequenas que as células endocervicais e o citoplasma sofre variações cíclicas em resposta às hormonas durante o ciclo menstrual. As células endometriais podem aparecer sozinhas ou em agrupamentos como grupos de células organizadas tridimensionalmente, com detalhes mal visíveis no centro. Os núcleos das células endometriais são redondos, hipercromáticos, geralmente sobrepostos, com o citoplasma microvacuolizado, degenerado ou escasso.

Na fase menstrual, as células endometriais aparecem em vários graus de conservação, com um fundo sujo e hemorrágico e abundantes detritos celulares. Alguns agrupamentos são acompanhados de histiócitos e leucócitos, aos quais Papanicolaou denominou de “êxodo”.

 

 

Tabela C2: Resumo das principais características celulares epiteliais pavimentosas e glandulares.

Tabela C2: Resumo das principais características celulares endo-cervicais.